domingo, 12 de março de 2017

Doce Sacrifício - Capítulo 38 [Don't Give Up On Us]

Música tema: Don't Give Up On Us [The Maine]

I am weakness, I am greatness,
I'm anything, you want me to be
I am wasted, and I'll make this
The anthem for a dying breed

Parte I – Joshua

Jessica estava se sentindo em um mundo paralelo. E para piorar, ela estava gostando disso. Não completamente, porque algo dentro dela ainda estava com um pé atrás sobre essa situação. Porém, era uma parte muito pequena, que não a impediu de ter passado horas falando sobre tudo e nada com Joshua por mensagens (o trabalho de Sociologia começava como o assunto, mas nunca terminava ali) e mais duas seções de filmes na casa da garota após fazerem o bendito trabalho.
Fazia duas semanas que eles tinham entregado o trabalho, ou seja, a desculpa para se encontrarem em sua casa tinha acabado, mas nenhum dos dois tocou no assunto e assim eles continuaram com sua rotina de três vezes na semana Joshua aparecer em sua casa e passarem o resto do dia assistindo a séries e filmes (Doctor Who comandava nesses dias).
Por mais que eles conversassem sobre praticamente tudo, Naomi era um tópico que nenhum dos dois ousava tocar, e como a menina tinha meio que sumido de cena, o que Jess sabia que a ruiva não faria se realmente estive namorando com Joshua, ela se permitiu desencanar sobre o assunto, afinal mesmo que não gostasse da garota, ela nunca que a apunhalaria assim.

-x-

See the light in the night when you're fading away
Trust in us, we're all that you've got these days
Take a look inside my heart
Oh, lets get carried away

Joshua e Logan estavam na casa do último, Miller sentado na cadeira em frente a sua escrivaninha, dedilhando uma melodia qualquer em seu violão, enquanto Campbell estava jogado em sua cama, digitando no seu celular com um sorrisinho idiota na cara.
Logan sabia que quando um garoto que tem namorada sorria daquele jeito para o celular, só podia significar uma coisa, mas Josh não ficava daquela forma com Naomi, então só tinha uma explicação para aquele sorriso.
- Fala pra Jess que eu disse oi.
- Quem disse que eu estou falando com ela? - a cara de inocente desentendido de Joshua podia enganar qualquer um, qualquer um que não convivesse com ele desde o jardim de infância.
- Sério? - Logan o olha diretamente nos olhos, como se estivesse dizendo: vamos, eu te desafio a mentir na minha cara. - Então com quem é?
...
...
- Jessica. - Logan quase conseguia ver o orgulho de Joshua pegando o seu casaco e saindo de cabeça baixa pela porta.
- Sabia!
- Como?
- Essa sua cara de idiota apaixonado te entrega toda vez.
- Eu não tenho... Eu não tô... - Joshua odiava ser pego de surpresa com essas coisas, ficava todo vermelho e gaguejando, era humilhante. - Tanto faz.
- Joshua, olha cara não fica bravo comigo, mas eu tenho que falar isso.
- Manda.
- Esquece esse plano, irmão. Não vale a pena.
Joshua deixa o celular de lado e se senta na ponta da cama, ainda estava com o rosto vermelho, mas agora, com o olhar distante e os ombros caídos parecia a imagem da derrota. Logan sabia que aquele era um assunto delicado, nem ele gostava de traze-lo à tona, porém lhe parecia claro que o amigo estava andando por uma rua sem saída, ele precisava convence-lo a dar meia volta e pegar outro caminho.
- Eu sei, mas eu já vim tão longe...
- Pra mim parece que você só andou pra trás.
- Ok, digamos que eu desista, e então?
- E então você vai atrás da garota certa.

-x-

Don't you dare, don't you ever give up,
Don't you ever give up, oh whoa
Don't you dare, don't you ever give up,
Don't you ever give up on us, my dear

Era noite de sábado, Jessica estava deitada em sua cama, concentrada no joguinho em seu celular enquanto Alison, sentada ao seu lado, olhava para as fotos de sua mãe e irmã pelo computador. Alison achava muito doido o fato de estar tudo parado em NY por causa da neve enquanto ali em LA o máximo que tinha era um vento gelado.
Não ficaram nessas atividades por muito tempo, no entanto. Jessica foi a primeira a notar o som vindo do lado de fora. Reconheceria aquela música em qualquer lugar, era uma de suas favoritas, mesmo sem um motivo aparente. Percebeu junto com Alison que aquela não era a voz do vocalista, parecia mais com...
Sem acreditar muito na conclusão que chegaram, ambas pularam da cama e foram até a janela do quarto, que dava para a rua, só para descobrir que estavam realmente certas, aquela era a voz de Joshua. Ele e Logan estavam de verdade no seu quintal tocando/cantando uma versão acústica de uma de suas músicas preferidas? Que tipo de alucinação esquisita era aquela?
- Jess, me diz que você está vendo o mesmo que eu e que eu não estou ficando louca.
Bem, se Alison também via, então devia ser verdade.
- Talvez nós duas estejamos numa viagem drogas muito fortes... - Jessica queria acreditar que era verdade, mas quais eram as chances? E por que?
- Eu tenho certeza absoluta que estou limpa. E você?
- Limpa como uma misofóbica*.

I am selfless, I am selfish,
I'm anything, that I want to be
This is violent, this is honest,
It's the anthem for a dying breed

Depois que Joshua e Logan terminaram a música, as duas desaparecem da janela. Eles já estavam começando a se preocupar, será que elas estavam enchendo baldes com água fria pra jogar neles? Mas então elas saíram pela porta da frente da casa e o coração de Joshua errou uma batida, acelerando em seguida. Certo, e agora? Ele devia dizer alguma coisa, mas o que?
- Vocês têm sorte que a Sra. Reed não está na cidade. Ela já ia mandar aquele poodle psicótico dela atrás de vocês. - Jessica estava falando com os dois, mas olhava somente para Joshua, como se não existisse nada mais.
Eles estavam se olhando com aquela expressão de quem tem muito a dizer, mas não sabe por onde começar. Alison pega no braço de Logan e o arrasta pra longe dali. Era melhor dar um pouco de privacidade ao dois.
- Eu sinto que deveria dizer alguma coisa inteligente e maravilhosa agora, mas a verdade é que eu não consigo pensar em nada.
- O que você está fazendo aqui, Joshua?
O rapaz respira fundo. Pensar em frases não iria dar certo. Aquele não era um momento para pensamento lógico, mas sim para sentimentos. Abrir a boca e despejar tudo o que estava sentindo, esperando que as frases atropeladas fizessem sentido. E que fossem a resposta certa.
Eu vim fazer uma serenata piegas para essa garota, sabe? A gente realmente funcionava juntos, mas ela me afastou por alguma razão que eu ainda não entendi direito e eu aceitei, dei o espaço que ela tava pedindo. Só que eu percebi que não era o que eu queria fazer, que não era o que eu deveria fazer. Então eu decidi dizer isso pra ela, na esperança de que ela entendesse e de que talvez ela também... - ele não conseguiu terminar a frase. Os lábios de Jess sobre os seus tornaram a tarefa um pouco impossível.
Na varanda da casa, Alison e Logan assistiam à cena. O moreno leva as mãos ao rosto, com a expressão de quem assiste dois gatinhos brincando com um novelo de lã.
- Own! Eles não são uma gracinha?
- É, são sim – Ali, que estava escorada à parede da casa, com os braços cruzados sobre o peito, revira os olhos para o garoto - eu vou até tirar uma foto e colocar numa camiseta pra celebrar esse momento.
Logan se vira para ela e deita a cabeça para um dos lados, analisando-a.
- Você não parece muito animada. Sabe que não precisa ficar com inveja, né? Se quiser, pode dizer que a música também foi pra você, afinal eu participei disso tanto quanto o Joshua.
- Por que você acha que o fato de você cantar qualquer coisa pra mim me faria sentir melhor?
- Ouch, Ali! Eu sei que pareço forte e durão, mas eu também tenho sentimentos.
- Bem, por mim você pode enfiar os seus sentimentos no seu c...
- Alison!
- No seu carro e ir pra bem longe com eles!

Parte II – David

See the light in the night when you're fading away
Trust in us, we're all you've got these days
Take a look inside these eyes
Oh, lets get carried away

David tinha voltado da pista de skate perto de sua casa para encontrar Lexis e Nick se fundindo no sofá. A questão é a seguinte: quando não é você ali trocando fluidos corporais, isso já é nojento o suficiente, mas quando é sua irmã postiça com o seu melhor amigo, a situação só pode ficar pior.
- Hei, irmãozinho! - Lexis se desgruda do namorado, pega um envelope de cima da mesa de centro e o entrega à Dave. - Isso chegou pra você.
- Valeu. - o garoto analisa o envelope branco e pensa em abri-lo ali mesmo, mas então ele nota que a menina estava interessada demais.
- Não tem remetente. O que é?
Ele nunca negou que era um pouco infantil e vingativo. Achou que deixá-la na curiosidade seria um bom pagamento pela sessão amasso no seu sofá. Da próxima vez, que ela fosse fazer isso na casa da mãe dela, ou ele jogaria um balde de água fria nos dois. E ainda os faria limpar a bagunça.
Sem responder à pergunta da outra, Dave segue até as escadas e vai para o seu quarto, onde poderia abrir o misterioso envelope a salvo de olhares curiosos. Ao abri-lo, percebeu que se tratava de uma carta impressa. Ele se senta em sua cama e começa a lê-la. De início achou que fosse algum tipo de brincadeira sem graça, mas conforme foi lendo, percebeu que ela fazia sim sentido.
A carta acusava Brenda Hitachiin de ser a antiga G e dava provas disso, junto com detalhes do que ela tinha feito e quem a ajudava. Um nome de destacou da folha como se estivesse escrito em tinta neon: Jessica Everdeen.
David tinha se esquecido completamente de que já chegara a desconfiar de Jessica. Foi exatamente na época em que Rachel teve uma overdose e foi parar no hospital. Ele teve uma conversa muito estranha com Jessica, na verdade foram vários pequenos momentos. Ela estava muito esquisita depois dos acontecimentos. Na verdade ela sempre ficava um pouco esquisita quando Rachel era mencionada. Agora ele sabia o motivo. Foi ela. Ela e Brenda. E Alison e Emily. E, claro, Matthew. Com esse aí Dave nem estava tão surpreso assim, mas ele conhecia Brenda, ou ao menos achava que conhecia. Ao que tudo indica, ele não conhecia a verdadeira Brenda, já que ela era a cabeça daquilo tudo. E Jessica? Ele a conhecia desde sempre, foram melhores amigos por anos, mais de uma década! Como ela pôde fazer isso? Por que? O que ela ganhava com aquela loucura?
A overdose de Rachel, a foto dos dois para Cody, a sua volta à clínica de reabilitação, o acidente de carro em que Lexis se feriu... Tudo obra deles! Até sabiam sobre o distúrbio alimentar de Madison e Vanessa, e incentivavam!
A segunda parte da carta não lhe era tão surpreendente assim. Nela havia provas de que Emily ainda estava ligada à G e que Joshua fazia parte desse novo grupo também. David sempre soube. Toda vez que ele olhava para o Campbell, ele sentia que o cara estava escondendo alguma coisa. O pior é que essa sensação vinha do seu senso de proteção com Jessica.
Ele não podia acreditar no quão cego ele fora em relação à ela!

Don't you dare, don't you ever give up,
Don't you ever give up, oh whoa
Don't you dare, don't you ever give up,
Don't you ever give up on us my dear

-x-

Jess desce as escadas aos tropeços. Seja lá quem estivesse do outro lado da porta, não parecia muito paciente. Apertava o botão da campainha como se o mundo fosse acabar caso não o fizesse. Assim que ela abre a porta de sua casa, David passa por ela, como um furacão, e vai logo exclamando:
- Eu não acredito que eu já cheguei a confiar em você!
Jess se assusta com aquela explosão. O que estava acontecendo? Ele parecia furioso.
- De onde isso está vindo?
- Você mentiu pra mim por todo esse tempo? - Dave lhe entrega a carta, ainda gritando enquanto ela lia o seu conteúdo. - O que tem de errado com você? Com todos vocês? - Tudo bem, agora fazia sentido aquela reação. Ele devia estar se sentido traído, e não era pra menos. Jess abre a boca pra tentar explicar, mas o barulho de passos faz os dois se virarem para as escadas. Ao ver Joshua descendo por elas, David parece ficar ainda mais nervoso. - O que ele está fazendo aqui?
- O que está havendo? - Jess entrega a carta para Joshua, que fica branco como o papel que tinha em mãos. Droga, onde David conseguiu aquilo? Era só o que lhe faltava! Agora que ele e Jessie estavam finalmente se entendendo... - Onde você conseguiu isso?
- O seu namoradinho não parece surpreso. Talvez você devesse perguntar a ele o por que.
- David... - Jessica tenta dizer alguma coisa, mas Joshua a impede.
Ele entra no meio dos dois, com medo de pra onde aquela conversa poderia levá-los. Três dias. Só tinham se passado três dias desde o seu pequeno concerto no jardim dos Everdeen. Não era tempo suficiente.
Ele estava tão preocupado tentando pensar em uma forma de contornar as acusações sobre ele na carta que nem lembrou que, tecnicamente, ele não sabia sobre Jessica e G, e por isso deveria parecer surpreso, assim como Dave havia dito.
- Cara, é melhor você ir embora.
Dave olha para os dois mais atentamente, percebendo certos detalhes que tinham lhe passado despercebidos. Os dois estavam meio corados, a raiz do cabelo molhada, um botão da blusa de Jessica estava na casa errada e a camisa de Joshua estava do avesso.
- Vocês dois realmente se merecem. - David não tinha condições de ficar nem mais um segundo ali. Após um último olhar carreado de mágoa para ex melhor amiga, ele lhes dá as costas e vai embora, batendo a porta com força atrás de si.

Don't give up on us
No, don't give up on us
Don't give up on us
No, don't give up on us

- O que ele quis dizer com isso? O que está escrito nessa carta...?
- Eu posso explicar!
- Então é verdade? Por que?
- Jessie... - ele tenta se aproximar, mas ela se afasta, como se ele fosse um leproso e ela estivesse com nojo de chegar perto.
- Como você pôde?
- Me deixa explicar, por favor!
- Não! Vai embora, Joshua.
- Jessie, por favor, só me...
- Agora Joshua!
O garoto pega a mochila que tinha deixado em cima do sofá da sala e vai embora, de cabeça baixa, sem olhar para ela. Não conseguiria fazer o que ela pediu se olhasse, iria se jogar aos seus pés e espernear até que ela o escutasse, o que era mais do que ridículo, mas acredite, se ele não saísse dali agora, seria exatamente o que ele faria.

Don't you dare, don't you ever give up,
Don't you ever give up, oh whoa
Don't you dare, don't you ever give up,
Don't you ever give up on us, my dear


*Misofóbica: pessoa que tem misofobia, ou seja, medo de se sujar, de ter contato com germes.
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Breaking News: Eu estou viva! E não desisti de DS!
Eu sei que demorei, e eu sinto muito, mas a vida fica meio complicada às vezes. E bloqueios criativos também não ajudam...
Mas aqui está: capítulo 38! E é com certo pesar que digo que DS está chegando à sua reta final, pois é, falta pouco para o fim. Porém, como eu demoro o tempo de uma vida para postar, pode ser que esse fim não chegue tao logo.
Enfim, aqui estão las respostinhas do cap. anterior. Muito obrigada pelos comentários e pra quem acompanha a história mesmo sem comentar também ♡ (estou num clima de distribuir amor hoje hahaha)
Beijos e até a próxima!

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Doce Sacrifício - Capitulo 37 [Cry]

Música tema: Cry [Marmozets]

Fight your wars don't leave blood
justice flows in your vein’s
Cut your shame from the vane
now you know in your heart
life's to short to fall apart”

Parte I – Emily

Visitas à clinica obstétrica sem dúvida não estavam na lista de coisas favoritas a se fazer de Emily. Ir com Matthew até ali, com certeza só fazia o trauma aumentar. Por que mesmo ela tinha pedido para ele ir com ela? Devia ter ido sozinha. É o que faria na próxima vez que Vanessa não pudesse a acompanhar, porque se mais alguém pedisse se Matthew era o pai da criança, Emily viraria um avestruz só para poder enfiar a cabeça em um buraco qualquer.
Matthew ainda estava um pouco vermelho pela pergunta inapropriada (para Emily) feita pela outra moça na sala de espera, que não parecia incomodada pelo equívoco (se soubesse do histórico dos dois, talvez ficasse). Antes que mais alguma pergunta constrangedora pudesse ser feita, Emily ouve seu nome ser chamado e, só Deus sabe porque, ela sinaliza para Matty acompanhá-la até a sala de ultrassonografia.
Quando a Dra. Tyler entrou na sala, encontrou os dois jovens em um silencio sepulcral, olhando para tudo, menos de um para o outro. Emily já estava com a roupa da clínica e a doutora preferiu fazer o seu trabalho e fingir que não percebeu a óbvia constatação de que tinha algo errado com aqueles dois. Durante todos os seus anos de carreira, Dra. Tyler já ouviu cada história que as vezes nem ela acredita que vivenciou, e ela sabia que ali tinha mais uma dessas. Porém Emily nunca foi de se abrir muito e se tinha uma coisa que Anne Tyler sabia fazer era ser profissional e ignorar fatores externos.
Estava indo muito bem nessa parte, até que ela decide fazer a bendita pergunta:
- Você quer saber o que é?
Emily estava tão concentrada em pensar em qualquer outra coisa que não fosse em Matthew vendo dentro do seu útero e ouvindo as malditas batidas de coração que demorou um pouco para entender o que a doutora havia lhe perguntado. Não precisou pensar muito na resposta, entretanto, pois já a sabia há muito tempo.
- Eu já sei o que é: é a porra de um bebê.
- Não quer saber o sexo?
Matthew sempre foi um pouco curioso e aquela pergunta o deixou inquieto. Ao ver Emily dar de ombros, fazendo pouco caso, ele teve que questionar:
- Já dá pra saber, doutora?
- Dá sim, eu posso dizer se a Emily não se importar.
Emily não se importava com isso, afinal aquela criança iria para a adoção no momento que o cordão umbilical fosse cortado, mas Matty parecia interessado na resposta. Achou que não faria mal.
- Tudo bem.
- Emily está esperando uma menina.
O certo seria ambos darem de ombros e seguirem com suas vidas, porém o que aconteceu foi um pouco diferente disso. De repente, o som daquele coraçãozinho batendo ficou difícil de ignorar e, pela primeira vez no dia, Emi se virou para olhar o monitor. Nunca via nada naqueles borrões na tela, assim como Matt estava com dificuldades para identificar qualquer coisa que não fosse riscos e manchas, mas mesmo assim, nenhum dos dois conseguiu desfiar o olhar do monitor por alguns bons minutos.
Anne conhecia esse momento muito bem. Eles estavam começando a reconsiderar.

Parte II – Madison

Era meio da tarde de uma terça-feira e Jessica estava sozinha em casa. Para não sucumbir ao tédio, decidiu passar seu tempo aprendendo a tocar novas músicas em seu violão. Férias de inverno eram um saco, frio demais para fazer qualquer coisa.
Estava concentrada tentando pegar o ritmo do refrão quando a campainha tocou. Não sabia se ficava feliz por algo estar de fato acontecendo no seu dia ou se ficava com raiva pela interrupção. De qualquer forma, teve que deixar o violão de lado e descer até a sala para atender seja lá quem estivesse na porta.
- Jeremy? - ela não estava esperando que fosse alguém em específico, mas ter Jeremy Marshall na sua porta era um tanto surpreendente. E curioso.
- Oi, eu posso entrar? - ele parecia um pouco nervoso, esfregando uma mão na outra. Mas talvez fosse só o frio mesmo. Era melhor dar um abrigo para o coitado do garoto servindo de alvo fácil para o vento congelante (o que não era muito comum, visto que estavam na Califórnia. Se Jessica fosse um pouco mais ambientalista, poderia ficar preocupada com esse fato).
- Claro.
Jessica o guiou até o sofá da sala e os dois ficaram um instante sentados em silencio. Aquilo a lembrou do dia em que Madison foi falar com ela e estavam na mesma situação. Pelo visto namorados pegavam mesmo as manias um do outro. Ela não saberia dizer, já que nunca ficou com alguém por tempo suficiente para isso acontecer.
- Então...?
- Madison me contou que você já sabia. Sobre o seu distúrbio alimentar.
- Faz um tempo. Por que? Aconteceu alguma coisa?
- Não sei. Não é como se ela falasse com a gente sobre isso. O que é um pouco estranho, ela não nos diz nada, mas conversa com você.
- Ela não conversa comigo.
- Mas ela veio aqui uma vez. O que você disse à ela?
- Pra ela contar pra vocês, pedir ajuda.
- Só isso?
- O que mais eu poderia fazer?
- Nos contar. Olha o tempo que demorou pra ela nos dizer alguma coisa! E só foi porque a Lexi descobriu!
Graças a quem? Jess queria dizer, mas achou melhor não fazer uso de sarcasmo nessa conversa. Jeremy parecia um pouco nervoso.
- Eu fiz o que eu podia. - Jessica já se sentia mal por ter negligenciado a situação de Madison aquela fez, Jeremy não ia fazer ela se sentir mal de novo.
- Tem certeza Jessica? Porque isso aqui é sério! E eu acho que você podia ter feito mais!
Ah, foda-se! Ela não ia deixar ele gritar com ela em sua própria casa (ou em qualquer outro lugar)!
- E eu acho que você está descontando na pessoa errada Jeremy! Eu não convivo com ela, não sou o namorado dela, ou amiga dela! Não tenho culpa que vocês demoraram uma vida pra descobrir o que estava acontecendo e só descobriram graças à Alison e eu, que nem temos nada a ver com isso!
Se isso fosse um filme, esse seria o momento de pegar uma pipoca e assistir o show, porque os dois se levantarem do sofá e ficarem em pé no meio da sala empurrando a culpa um para o outro era só o começo.
- É claro que não tem! Você está ocupada demais fodendo com qualquer um e se entupindo de drogas pra se importar!
Nenhum dos dois percebeu isso vindo, mas ambos ouviram (e sentiram) o estalo da mão de Jessica em contato com a bochecha de Jeremy. E depois, um momento muito constrangedor de silêncio. Jessica recolhe a mão (que se já ardia pra caramba, nem queria imaginar a dor no rosto de Jeremy) e decide tomar as rédeas daquela situação calamitosa.
- Acho que ambos deixamos os ânimos se exaltarem. É melhor você ir embora. Agora.
Nem precisava pedir duas vezes. Jeremy não podia acreditar que tinha deixado as coisas chegarem àquele ponto!

-x-

Madison não sabia se ria ou se chorava daquela situação. Não bastava seus amigos ficarem em cima dela como cães-de-guarda, gruindo a cada menção que ela fazia de ir ao banheiro sozinha, tinham também que contar tudo para a sua mãe! E é claro que dona Lewis aceitou isso numa boa... só que não. Ela estava furiosa. E nem eram pelos motivos certos.
Angelic Lewis não estava brava por sua filha estar brincando com sua saúde daquela forma, mas sim por não ter percebido a filha fraca que tinha criado. Onde já se viu ter todo esse trabalho e não conseguir emagrecer? Se a menina fechasse um pouco a boca, nem precisaria ir ao banheiro vomitar. Era só ter um pouco de disciplina e parar de comer tanto. E ir à academia com sua mãe nos fins de tarde. Pronto, era isso que Angelic faria, colocaria sua filha na academia e numa dieta rígida. Se ela queria emagrecer tanto assim (e convenhamos que ela estava precisando), então ela iria, mas de uma maneira onde Angelic não precisaria passar pelo constrangimento de ter que explicar que havia criando uma filha doente!
Com esses pensamentos da mãe, fica fácil imaginar a situação de Madison agora: nem um pouco melhor. Todo aquele julgamento da mãe e a falta de confiança dos amigos não ajudavam Madison a parar. Ela não se sentia segura para compartilhar com eles o que sentia, não só porque eles não lhe transmitiam essa segurança, mas porque ela sabia que eles não entenderiam. Sua mãe, suas amigas, Jeremy, nenhum deles haviam passado por alguma situação que chegasse remotamente perto do que ela estava passando agora. Eles não sentiam nojo deles mesmo quando se olhavam no espelho, não precisavam ouvir todo um discurso pronto de como pessoas gordas eram gordas por serem desleixadas, ou como elas era feias, ou erradas. Não precisavam dar um sorriso falso toda vez que ouviam uma frase do tipo “ela é gordinha, mas até que tem um rosto bonito” ou “ela é bonita, apesar de ser gorda” ou então o famoso “eu não acredito que ele me largou pra ficar com aquela gorda!”.
Eles não sabiam como era.

Parte III – Joshua

Era oficial: Jessica estava enfrentando sérios problemas de carma.
Primeiro, ela conseguiu entrar numa discussão calorosa com o garoto mais tranquilo de toda Roundview High School (provavelmente de toda Los Angeles), e agora, de volta às aulas, descobre que teria que fazer o próximo trabalho de Sociologia com a sua dupla do trabalho anterior, ou seja Joshua Campbell.
Sério, qual era o problema que o Universo tinha com ela?
Jessica podia estar odiando aquilo, mas Joshua estava adorando. Estava quase fazendo um altar em sua casa para a professora Katie. De verdade.
Ele já estava repensando o seu plano há um bom tempo e esse trabalho talvez fosse mais uma dica para ele. Aquilo não estava funcionando mesmo, estava praticamente sozinho naquela empreitada e precisava confessar que nada daquilo compensava ficar longe dela.
Não podia mais enganar a si mesmo: sentia falta de Jessica. Mas não podia ficar com ela se continuasse com o plano. Não que ela o quisesse de volta. Ou queria? Jessica parecia ficar incomodada quando ele estava por perto. Joshua só não saberia dizer se era porque ele ainda mexia com ela ou porque ela simplesmente achava constrangedor ficar por perto de ex-namorados. Não que ela estivesse tendo esse problema com David. E sim, tem gotas de ciúmes nessa frase.
O problema mesmo era Naomi. Em mais de uma maneira, o que deixava o “problema Naomi” bem grande.
De volta ao trabalho de Sociologia, Jessica teve a (nem tão) brilhante ideia de propor que o fizessem em sua casa. Ponto para Joshua. Porém, ela se esqueceu que Marta não estaria lá na terça-feira. Mais um ponto para Joshua. A vida estava facilitando tanto para Joshua que ele teve que tomar isso como um “pelo amor de Deus, larga esse plano idiota e se acerta de uma vez com essa menina!”. Joshua é que não seria idiota de não seguir um conselho desse.
E agora estavam os dois sentados no chão da sala dos Everdeen, sobre o tapete felpudo xodó da mãe de Jess, em um silêncio estranho. Jessica parecia estar com a cabeça em outro lugar, a feição um pouco preocupada.
- Está tudo bem com você Jess?
- Não muito...
- Bem que eu senti um distúrbio na força. O que houve?
Os dois estavam com as costas apoiadas no sofá, que conseguia ser alto o suficiente para apoiar suas cabeças também. Ela vira o rosto na direção do garoto, observando-o por um instante, tentando decidir se lhe contava ou não. Resolveu que não faria mal ter a sua opinião no assunto.
- Eu acho que consegui fazer um feito bem idiota. Você acreditaria se eu te dissesse que briguei com Jeremy ao ponto de lhe dar um tapa?
- Jeremy? Marshall? Brigando? Tem certeza?
- Pois é.
- Por que?
- Madison. - ela não sabia se deveria dizer mais do que isso, afinal não era seu segredo para sair espalhando por aí. - Eu descobri que ela estava com um problema e acho que não ajudei o quanto deveria. Quando Jeremy descobriu, ele ficou doido. Na hora eu achei meio injusto ele descontar em mim, sendo que percebi algo que ele deveria ter notado. Mas talvez ele esteja certo, sabe? O problema era um pouco sério.
- E onde entra o tapa nisso?
- Ele veio aqui, nós discutimos, ele disse umas coisas que eu não gostei e eu bati nele.
- O que ele disse? - Joshua não estava gostando disso. Jessica não ficava distribuindo tapas por aí por qualquer motivo. Para isso ter acontecido, Jeremy deve ter dito algo muito sério. Joshua estava começando a criar uma raiva sem fundamento pelo garoto.
Jessica percebeu a feição um tanto irritada de Joshua e por isso resolveu por bem terminar com aquele assunto. Joshua tinha essa mania de dar uma de herói pra cima dela.
- Não importa agora. Você está com fome? Marta não está aí hoje, mas eu posso me aventurar na cozinha e ver se acho alguma coisa pra gente comer. - ela não esperou pela resposta do garoto, se levantando e seguindo para a cozinha. Joshua ainda não estava pronto para deixar aquele assunto de lado, mas decidiu respeitar sua escolha e a seguiu até a cozinha, porque para ser honesto, ele estava mesmo com um pouco de fome.
Jessica resolveu fazer um chá, porque o tempo frio pedia pela bebida, e Joshua (que nunca foi muito de ter vergonha mesmo) estava fuçando nos armários, vendo se encontrava alguma coisa. Achou um pacote de pipoca de micro-ondas.
- Que tal uma pipoca? E um filme?
- Nós ainda temos que terminar o trabalho
- E um filme depois que terminarmos o trabalho? Você não me deixou acabar a frase.
Filme? Ela e Joshua? Joshua e ela? Filme?
- Tudo bem.

Parte IV – Madison e Jessica

- Madison, espera!
Madison tinha acabado de sair do banheiro. Tinha aproveitado que estava sozinha na biblioteca para ir também sozinha ao banheiro, precisava se livrar do seu café-da-manhã, que já estava pesando no estomago.
- Jessica? Está tudo bem?
- Está sim, só queria saber como você está mesmo.
- Como eu estou?
- É, faz um tempo que a gente não conversa, sabe, sobre aquilo.
- Nós nunca conversamos sobre aquilo, ou qualquer outra coisa.
- Bem, você tinha me pedido ajuda, não tinha?
Então realização atingiu Madison. Seus amigos não saberiam pelo o que ela estava passando, mas talvez Jessica poderia ter uma leve noção, visto que ela também tinha uma espécie de “prática condenável” pelos outros e de certa forma era julgada sobre isso.
- Depende. Que tipo de ajuda você tem em mente?
- Eu tenho que ir nesse grupo de ajuda sobre vícios, e eu pensei que talvez isso te ajudasse, falar com pessoas que entendem pelo o que você está passando e ter o acompanhamento de um profissional.
- Qualquer um pode entrar?
- Sim, é bem tranquilo, e tem todo esse pacto de não falar sobre o que é dito lá e tal. Estaria interessada?
- Quando você vai?
- Nas quartas, no caso hoje, e nas sextas, logo depois da escola.
- Me espera na esquina, em frente ao ponto de ônibus, não quero que ninguém saiba.
- Tudo bem.

I'm fighting I'm fighting on my own
[...]
Still fighting still fighting on my own, on my own


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Olá Weirds and Wonderfuls! Tudo sussa na montanha-russa?
Então, Emily está esperando uma menina (*.*) Será que alguém está começando a se apegar?
Treta com Jeremy e Jessica... Eita, eita.
Qual será esse "plano" do Joshua? Alguma teoria? Diz aí!
Espero que gostem o capítulo (me tomou alguns dias a mais do que esperava, sorry!)
Beijos no pâncreas e até a próxima! ;)

domingo, 15 de maio de 2016

Doce Sacrifício - Capítulo 36 [Blood Hands]

Música tema: Blood Hands [Royal Blood]


Took a lonely feeling
Just to let the meaning
Sink like the sun goes down
Never close to heaven
Felt my feet were burning from the same red hot ground

Um ano atrás –

David se sentia idiota. Idiota por estar se culpando por algo que antes ele não via problema algum.
Quantas vezes ele já não planejara fazer aquilo? E agora que realmente fizera, estava se sentindo uma pessoa horrível. Ele só queria descobrir o porquê.
Ela tinha namorado. Bem, era só o cara não ficar sabendo. Ou então David faria uso das aulas de judô que frequentava anos atrás.
O cara estava do outro lado do país. E sem previsão certa para voltar. Não tinha como ele saber, só se a namorada lhe contasse - o que David duvida seriamente. Fazer isso pelas costas dele, no entanto, mesmo a menina estando claramente precisando de atenção, era muita sacanagem. Mas ela estava lá, e David também... somente aconteceu.
Ela era a melhor amiga da sua “irmã”. Certo, isso nem era um problema. Pode ser retirado da lista.
O garoto estava tão compenetrado na tarefa de tentar descobrir o que lhe fazia sentir culpado por ter beijado Rachel Martin que demorou alguns segundos para notar a movimentação ao seu lado, só despertando completamente quando Nicholas estalou os dedos em frente a sua cara.
- Tava em que galáxia, cara? - Nick, Jeremy, Madison e Lexie estavam sentados na mesa que ele ocupava, olhando-o de forma divertida. Deveriam estar tentando chamar sua atenção havia algum tempo. Não que ele se importasse com isso.
Ele ia responder com alguma gracinha quando Lexie o interrompeu, olhando com os olhos arregalados para o portão do Roundview.
- Não acredito!
Os outros quatro adolescentes olham na mesma direção, procurando o que deixara a loira tão chocada. Até que eles encontram: atravessando o pátio, estava Rachel, andando de mãos dadas com um garoto loiro.
David joga-se contra o encosto do banco, olhando-os sem acreditar em seus olhos, se sentindo a pessoa mais azarada do Universo. O que aquele cara estava fazendo ali? Era para Cody estar na maldita clínica de reabilitação, se desintoxicando de todas as drogas consumidas nos últimos meses, não andando todo sorridente ao lado de Rachel, e pior: na sua direção!
- Cody! Quando que você voltou? - Madison e Alexandra se levantam para cumprimentá-lo com um beijo na bochecha, numa felicidade que David achou completamente desnecessária. Qual é! O moleque era um drogadinho filho da puta, que só meteu Rachel em encrenca por causa disso! Como elas podiam apoiar aquela relação?
- Ontem mesmo. E aí, caras, beleza? - era só o que faltava! Até Jeremy e Nick estavam cumprimentando o filho da mãe!
Mas se acham que David iria fazer o mesmo, saibam que estão muito... certos, porque David Thompson era bem esse tipo de sínico sem-vergonha mesmo.

~”~

- Mas Cody já está de volta? - a garota estava deitada na cama de Matthew, lendo em seu celular a mensagem que acabara de chegar. Era sua amiga Alison lhe contando a mais nova notícia e, claro, perguntando onde ela estava. Jessica responde rapidamente que iria se atrasar e devolve o celular ao criado-mudo, ajeitando-se sob o lençol.
- E o que você esperava? Todo mundo acha que o filho do Senador só estava tendo um momento, se ele ficasse mais tempo por lá, todos saberiam que ele é um puta de um viciado das antigas. - a garota dá de ombros, observando o garoto ao seu lado se mexer e ficar por cima dela, com os braços apoiados ao lado de sua cabeça. - Na verdade, ele é um garoto de sorte.
Matthew também era, em sua concepção. Afinal não era qualquer um que podia ficar com Emily e Jessica quando e quantas vezes quisesse. Esse negócio de poligamia era a melhor coisa que já inventaram, na real!
- E não podia ter voltado em hora melhor. - ela solta um suspiro no meio de sua fala, ao sentir os lábios de Matty em seu pescoço. Talvez devesse ter dito à Ali que não iria para o colégio hoje. - Ela com certeza vai usar isso.
- A foto?
Jessica engole em seco, sentindo como se estivesse fazendo alguma coisa muito errada. Mesmo que gostasse de proferir pra quem quisesse ouvir o quanto David estava morto pra ela, Jessica ainda não se sentia bem fazendo essas coisas com ele. Se bem que aquilo poderia ajudá-lo a se livrar do namorado da garota que ele queria. E olhando por esse lado, ela até podia fingir que estava fazendo isso a favor dele.
- A foto.

~”~

It's getting hard to listen
When the clock is ticking
Counting down the days gone by
Praying for an answer to another question
That will only leave you dry

Os gritos continuavam altos e irritantes como ele se lembrava. Passara três meses ouvindo os gritos suplicantes dos outros pacientes passando pela pior fase da abstinência e nenhum deles, incluindo os próprios, chegava a incomodá-lo como aqueles que ele ouvia agora.
Nada como retornar ao doce lar... Bem, Cody não saberia dizer, pois nunca se sentira em casa ali. Também não achava que seus pais já tivessem. Talvez no início, quando Cody era ainda um bebê e eram tudo flores na carreira política do pai. Mas não agora. Não depois de perceberem que não se amavam mais, não depois das puladas de cerca de ambos os pais... Não depois das drogas. A mãe culpava o distanciamento do pai e o pai culpava a futilidade da mãe. Como se não fossem ambos distantes e fúteis em igual proporção. Talvez fosse por isso que se odiavam, eram parecidos demais.
O garoto estava considerando a ideia de fugir por algumas horas (já que estavam sob ordem expressa de não deixar a casa sem supervisão), quando percebeu o pacote na sua mesa. Era uma caixa pequena, quadrada, prateada com um laço branco amarrado à ela. Cody a examinou e, não encontrando nenhum tipo de identificação, desfez o laço e puxou a tampa. Encontrou três saquinhos com pó dentro e dois frascos cheios de pílulas.
Deveria jogar aquilo fora, afinal não sabia quem lhe deixara a caixa e estava somente a dois dias fora da reabilitação. Tinha que ser mais forte do que isso. Mas então ouviu o barulho de algo se quebrando no quarto dos pais e decidiu que foda-se.

~”~

Achou que conseguiria ser forte quando passou os dois próximos dias sem lembrar da caixa escondida em seu quarto. Mas então uma das empregadas lhe entregou o envelope. O envelope com a maldita foto.
Sabia que era melhor lidar com a situação sóbrio, que precisava falar com Rachel e encarar a situação com o pouco de dignidade que ainda lhe sobrava. Mas sua resistência estava rachando e tudo no que ele conseguia pensar agora era na caixa escondida no fundo falso do seu armário. A qual, pelo bilhete que acabara de receber, fazia uma ideia a quem pertencia.
Você passou muito tempo fora, precisava se inteirar dos fatos. O curativo eu já te mandei, espero que ainda o tenha. Bem-vindo de volta, G.

~”~

David estava virando o corredor, em seu caminho até o refeitório, quando foi brutalmente interrompido por um puxão que o fez bater com as costas na parede.
- Pra que essa violência? - ele olha indignado para o seu agressor, percebendo que na verdade se tratava de uma agressora: Rachel Martin.
- Foi você, não foi? - ela não parecia muito feliz, com a postura tensa e uma tempestade de raiva nos olhos escuros.
- O que aconteceu? - Dave já estava ficando assustado com aquela situação, mas então ela lhe empurra uma foto e quando ele vê a imagem de si mesmo beijando Rachel, ele entende tudo.
- Cody viu?
- É claro que ele viu! Você manda essa merda pra casa dele e quer que ele não veja?
- O que? Rachel, essa foto não é minha, eu não mandei isso pra ele! Eu nem sabia da existência disso aqui. Olha, se você quiser eu vou falar com ele, digo que você não...
- Não. Não importa mais agora.
Pelo seu tom David soube que estava tudo acabado. Rachel e Cody tinham terminado. A descoberta o deixou com uma sensação agridoce, estava feliz por ela ter se livrado daquele idiota, mas a tristeza em seu olhar acabou com ele. Thompson precisava descobrir quem mandou aquela foto para Cody. Tinha que lhe ensinar a não ficar se entrometendo na vida dos outros assim, principalmente na de Rachel.

~”~

Every time I'm drinking
Try to stop my thinking
About the things I've said and done
Stop the world from turning faster
Than I'm learning not to just hide and run

- Eu ainda não entendi, você gosta do David, pra que fazer Rachel e Cody terminarem?
- Pelo show, é claro. E se ela chegar perto do David de novo, eu posso tirá-la do caminho rapidinho. Que cara é essa?
- Você não pode ficar brincando com a vida deles assim. Acho que chegamos longe demais.
- Longe demais? Eu não estou nem perto de onde quero chegar ainda.
- Tem razão, você não matou ninguém ainda. Ah, espera, talvez esse seu próximo passo vá.
- Eu não tenho culpa se ela não sabe guardar segredos.
- Mas deve ter outras formas de faze-la aprender! Sério Brenda, você já colocou pessoas o suficiente numa cama de hospital!
- Eu não apontei uma arma na cabeça deles e os obriguei a fazer algo. Fizeram porque quiseram.
- Não faça isso.
- Ou o que? Você vai me denunciar? Porque, e eu sei que você sabe disso Emily, se eu cair, eu levo todos vocês comigo.

~”~

David perde o equilíbrio e cai mais uma vez do skate. Era a terceira em menos de dez minutos. Definitivamente ele não estava em um bom dia para aquilo. Resolveu parar e sentar em um dos bancos espalhados perto da pista de skate.
Tinha um embaixo de uma sombra bacana, mas não sabia se deveria se aproximar, afinal Jessica Everdeen estava sentada ali. Parecia agitada, balançando uma perna e girando o celular nas mãos.
A relação entre eles não era mais tao estranha, mas ainda assim ele não se sentia tao a vontade em falar com ela. Afinal, foram dois anos de relações cortadas.
Se considerasse essas variáveis, chegaria a conclusão de que era melhor ignorá-la e seguir com sua vida, já que tinha certeza que era isso o que ela faria, mas quando deu por si, já estava sentado ao lado dela, fazendo a pergunta de um milhão de dólares:
- Está tudo bem?
Jessica já o tinha visto se aproximando (estava observando-o desde quando chegara no parque), por isso não se surpreendeu em te-lo ali, mas estava tao presa em seus pensamentos que se fosse em qualquer outra situação, teria levado um susto. Chegava a ser engraçado até, na verdade. Ter a razão de seu conflito interno sentado ao seu lado lhe perguntando se ela estava bem. Sua situação deveria estar mesmo desesperadora para o garoto que fingia não saber de sua existência (a recíproca costumava ser verdadeira) estar lhe fazendo tal pergunta.
Com um suspiro e um tom que não convencia ninguém, ela optou pela saída mais segura:
- Está sim. E com você? - ela aponta rapidamente para o esfolado no braço de David, recém adquirido pela última queda.
- Meu equilíbrio resolveu me abandonar hoje. Muita coisa na cabeça, eu acho.
- Rachel?
Dave ficou vermelho na hora, mas o tempo que Jessica precisaria para se arrepender de tocar no assunto foi substituído pela confusão que se seguiu.
Um carro cantou pneu numa rua ali perto e a comoção foi instantânea. Os dois se olharam assustados e levantaram do banco, seguindo os outros pedestres até o local do barulho.
Um acidente, foi o que descobriram a se aproximarem. Jessica conseguiu dar uma olhada na rua e viu que, estirado no chão, no meio de todas aquelas pessoas, Joshua Campbell jazia inconsciente.
O celular em sua mão vibrou e, tremendo, a menina desbloqueou a tela, só para encontrar o motivo de todo aquele carma negativo em sua vida:
Quietinha você fica mais bonitinha e menos perigosa para as pessoas a sua volta.
Ela não precisou assinar, nem se explicar mais. Joshua estava pagando pela carta que Jessica mandara para Rachel no hospital.
Brenda passara de todos os limites.
Ainda em choque, Jessica se obrigou a sair dali. Já tinham chamado uma ambulância e ela não confiava em si mesma naquele estado perto de David. Ia acabar contando sobre a foto, a overdose de Rachel, tudo. É o que ela queria fazer há um bom tempo. E mesmo com a recente ameaça, ela não exitaria, estava cansada de tudo aquilo. Porém, o resultado não atingiria só a ela, e isso, ao contrário de todo o resto, ela podia evitar.

~”~

Quando Matthew recebeu a notícia, ele realmente achou que fosse uma brincadeira de mau gosto, ou que Emily estava zoando da cara dele. Brenda sofrer um acidente de carro e ir parar em estado grave no hospital era para ser uma notícia horrível, mas Matt não conseguiu frear o pensamento de que talvez ela merecesse isso, por todas as coisas que ela fez. Porém, se você parar para pensar, Fitch a ajudara em quase todas aquelas “brincadeiras”, logo, ele também merecia algo parecido? Não queria pensar nisso agora. Não podia.
Um acidente como esse poderia chamar a atenção, principalmente para onde o GPS de Brenda dizia que ela estava indo quando perdeu o controle da direção (para o QG do TheGossip). Matthew precisava sumir com as evidencias de que estavam ligados à ela. Talvez deixasse algo que “incriminasse” (entre aspas mesmo, porque não existe Lei direta para merda feita na internet) somente Brenda, isso talvez a fizesse parar com toda essa loucura. Porém, após fazer isso e chegar finalmente ao hospital, a visão de Emily chorando ao lado da mãe de Brenda e Jessica lhe balançando a cabeça negativamente, confirmaram que Brenda realmente não faria mais nada. Nunca mais.

~”~

Os três estavam assistindo o final da cerimonia mais para trás das outras pessoas presentes. Emily estava na lá frente, é claro, afinal era a sua melhor amiga ali naquele caixão. Alison achou que era mais sábio Jessie, Matty e ela não se aproximarem muito, visto que para todo mundo eles eram meros colegas de escola. Era melhor deixar desse jeito. Estava tudo acabado qualquer forma.
Mas então algo que ela só presenciava do outro lado lhe aconteceu. Seu celular tocou ao mesmo tempo dos de Jessica e Matthew. Nenhum deles sabia o que pensar quando leram a mensagem:
Não precisam ficarem triste, eu ainda estou aqui. E eu sei de tudo. Bem-vindos ao outro lado. Xoxo – G.
Porém, uma coisa era certa, ao ver a expressão surpresa de Emily os encarando lá da frente, Alison soube que aquilo ainda não tinha acabado.

But there's blood on my hands
Yeah, there's blood


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Salut! Finalmente saiu o último flashback, aquele com a coisa fofa do Cody (ou não).
Dois meses sem atualização é até um bom tempo no meu histórico, então comemoremos!
Espero que tenham gostado do pequeno remember. Aqui (cap. 34) e aqui (cap. 35).
Au revoir!
ps: se você sabe de onde é a imagem do início, vamos nos amar (e chorar junto)!

terça-feira, 22 de março de 2016

Doce Sacrifício - Capítulo 35 [Sick Little Games - Harry Parte II]

Música tema: Sick Little Games [All Time Low]

We're all part of the same sick little games and I need to get away”

Harry pensara nas possibilidades milhares e milhares de vezes. Será que aconteceria alguma coisa se ele contasse? O que aconteceria se ele contasse? Nunca parou para pensar profundamente nisso porque nunca realmente pensou em contar.
Quando perdeu o controle da direção numa curva e seu carro capotou na pista, tudo no que pensou antes de perder a consciência era que ele nem havia contado ainda. E nunca iria.

~”~

Alison não podia acreditar. Ela viu acontecer, mas não podia acreditar.
Não tinha como aquele acidente ser mais inconveniente! Tudo bem, talvez essa não fosse a palavra e ela estivesse sendo um pouco egoísta ao pensar daquele jeito, mas poxa! Harry tinha que sofrer um acidente justo minutos antes de finalmente lhe contar seja lá o que ele tinha para dizer sobre G?
Está bem: Alison estava sendo egoísta. O acidente foi muito feio e ela duvida que Harry estava bem, e tudo no que ela conseguia pensar era que não teve a chance de descobrir o que ele sabia. Egoísta, certo, podemos seguir em frente.
Ainda tentando processar o ocorrido, Alison sai a procura de Jessica. Precisava lhe contar sobre isso. Era muito estranho, muita coincidência que isso acontecesse justo agora. Será que foi realmente um acidente? Se o que Harry tinha para lhes dizer era mesmo sobre G, será que ela deveria tratar o fato como um acidente?
Poderia discutir isso com Jessica assim que a encontrou, porém elas não puderam falar o que realmente pensavam, pois David estava ali com elas e era melhor não o meter nessa situação. Mas pelo olhar que Jessie lhe mandara, Ali soube que a amiga também estava tendo a mesma dúvida.

~”~

Dakota observava o garoto pelo vidro da janela, ele parecia melhor. Ela, ao contrário, estava acabada. Não conseguira pregar os olhos à noite, preocupada com o estado de Harry. A cena de seu carro perdendo o controle se repetia em um loop infinito na sua cabeça. Dakota preferia pensar que toda a sua preocupação era coisa de amiga, mas talvez, e só talvez, ela estivesse se deixando levar demais por seja lá qual for a relação que eles tinham. Por Deus, ela tinha acordado às sete da manha de um feriado só para ir vê-lo!
Tudo bem que “acordado” era superestimado, já que ela não dormira de fato, e bem, isso por si só já era preocupante. Dakota não podia deixar isso acontecer. Ele gostava de outra e em poucos meses ele iria para a faculdade, enquanto a loira ficaria ali, presa por mais três anos ao Ensino Médio. Ela não podia lidar com mais uma pessoa com quem ela se importava a abandonando, e aquele acidente lhe serviu muito bem para lembrá-la disso.

~”~

- Eu ainda acho que foi muita coincidência.
Alison e Jessica observavam a fachada do hospital, de dentro do carro da loira.
- Bem – Jess arruma seu cachecol em volta do pescoço, preparando-se para encarar o vento do lado de fora. – o TheGossip também não acha que foi só um acidente.
- Como assim? Espera! Você lê aquela merda?
- Eu não, mas o David estava meio nervoso por causa de uma enquete que anda rolando por lá. Ela pede pra você votar se acha que o culpado foi o Nick, por causa da mãe dele e da Alexandra, ou se foi o Raphael, por causa da Michelle e da Dakota.
É incrível como o laudo da perícia nem saiu ainda pra confirmar o que deu errado no carro, mas mesmo assim já tem pessoas prontas para bancarem o júri. Exatamente como aqueles programas policiais/jornalísticos sensacionalistas que saem julgando todo mundo a torto e a direito.
- Nick nunca faria uma coisa dessas! - será que ele sabia sobre essa enquete? Alison faz uma nota mental pra se lembrar de falar com ele depois. - E também não acho que o Raphael chegaria à tanto...
- Não. Parece extremo demais. Bem coisa de G mesmo.
As duas fecham suas jaquetas e descem do carro, andando em direção à porta do hospital. Precisavam falar com Harry antes que o horário de visitas acabasse. Só esperavam que as outras visitas tivessem ido no horário da manhã e que agora, já no fim da tarde, ele estivesse sozinho no quarto.
Não estava, porém. Sua tia continuava ali, mas graças a Deus ela os deixou a sós assim que as meninas chegaram.
- Como você está? - ele tinha um braço e uma perna engessados e agulhas perfurando o outro braço, Jessica realmente não sabia por que tinha feito aquela pergunta.
- Melhorando. - Hazz dá de ombros, já tinha perdido a conta de quantas vezes respondera aquela pergunta desde que acordara. Oitenta por cento das vezes, foi para a sua tia.
- Que bom. – Alison estava sendo sincera, mas a sua postura apresada a fez soar um pouco rude. Nada de muito diferente, tratando-se de Alison. - Sobre a mensagem que você nos mandou...
- Não era nada. Na verdade eu nem lembro o que eu queria dizer. – Harry desconfiou que era por isso que elas estavam ali no momento em que as viu cruzar a porta. Na verdade, ele pensara sobre esse assunto por uma boa parte do dia e já tinha chegado a uma conclusão. - Esqueçam isso.
Elas sabiam que isso poderia acontecer, que ele também desconfiaria que aquele acidente tinha sido coisa de G e mudado de ideia sobre contar o que ele sabia, porém ter a confirmação dessa hipótese foi como um banho de água fria pra elas.
- Tem certeza Harry? - Jessica o pegunta uma última vez, deixando claro no seu olhar que elas sabiam o que ele estava fazendo e que estavam lhe dando uma chance para reconsiderar.
- Tenho. - ele percebeu, mas já tinha tomado sua decisão e não tinha divindade no céu ou demônio no inferno que o fizesse mudar de ideia. - Não era nada.

~”~

Matthew as estava esperando quando elas chegaram à casa de Jessica. Antes de ir ao hospital com Alison, ela ligara para o garoto e o deixara a par de toda a situação com Harry, logo ele também estava super curioso para saber qual era o envolvimento de Jones com G. Infelizmente, descobriu que teria que conviver com a dúvida quando as meninas lhe contaram sobre a decisão de Harry.
Matty não o julgava, no entanto, pois se estivesse no seu lugar faria a mesma coisa. G deixara bem claro que não o pouparia se ele abrisse a boca e se o menino fosse esperto e tivesse amor a vida, ele acataria com os termos sem pestanejar. Porém, Matty tinha que confessar que ficara um tanto quanto decepcionado. Se Harry lhes contasse algo grande, Matthew esperava que eles conseguissem ficar mais próximos de saber quem é G e acabar com essa história de vez. Mas, pelo visto, ela continuaria atormentando suas vidas e os tratando como marionetes de seu show particular por mais um bom tempo.

~”~

Harry detestava ter que passar a noite num hospital, por isso sua cara de desgosto ao descobrir que teria que ficar aquela madrugada ali em observação não foi grande surpresa. Em observação. Como se não tivessem feito isso o dia inteiro. Ele poderia reclamar um pouco mais se não estivesse tão cansado. Aquele foi um 1º de janeiro muito estranho. Ainda bem que Hazz não tinha superstições de ano novo, ou ficaria um pouco preocupado com o ano que teria pela frente.
Foi um dia estranhamente agitado, apesar de ele não ter se movido um centímetro (claro, se você não contar as experiências traumatizantes de hospitais, como ter que tomar banho com a ajuda de enfermeiras e da sua tia). Sua mente ainda estava tentando processar todos os acontecimentos, ele estava achando a tarefa particularmente difícil porque cada um deles lhe proporcionava emoções diferentes.
Optou por recapitular o seu dia em ordem cronológica, como sempre fazia antes de dormir, pra ter certeza que não tinha esquecido nada. Primeiro, ele estava um tanto intrigado pelo o que sua tia lhe contou logo que ele acordou pela manhã. Dakota esteve ali desde o início do horário de visitas até o momento que soube que ele acordara, mais de uma hora depois, e sem lhe dar nem sequer um “oi”, ela foi embora, assim sem mais nem menos. Qual era o ponto em ficar todo aquele tempo ali (na manhã de um feriado), se assim que ele acordou e eles poderiam conversar, ela vai embora?
Ele a mandou uma mensagem quando seu tio chegou com o seu celular, mas ela não o respondera, o que era esquisito, já que os dois estavam sempre trocando mensagem, mesmo quando era desnecessário.
Harry poderia ter dado mais atenção a esse fato, se o seu quarto não tivesse virado um entra e sai de pessoas conhecidas e de enfermeiros o dia todo. Ele poderia achar aquilo ruim, mas então Alexandra passou pela porta e ele entendeu o sentido daquela frase “há males que vem pra bem”, porque, poxa, era a Lexie, bem ali na sua frente, toda preocupada com ele... Tudo bem, hora de admitir: Harry estava se tornando sadomasoquista. Porque não tinha outra explicação para o fato de ele se negar seguir em frente e esquecer de uma vez dessa sua paixão não correspondida (o tipo de paixão mais comum e mais filha da puta, verdade seja dita). Mas é óbvio que a sua alegria não ia durar muito, porque é claro que ela tinha que se despedir dizendo que estava indo ver Nicholas, a.k.a., O Namorado.
Não teve muito tempo para se afundar na fossa porém, porque logo quem ele imaginou que apareceria, realmente apareceu. Indiretamente, o motivo de ele estar naquela cama de hospital: Jessica Everdeen e Alison Fitzgerald.
Harry preferia ter os dois braços arrancados à admitir que estava com medo de abrir a boca, mas ele estava. Muito. Então não, ele não se arrependia de ter ficado quieto sobre tudo o que ele sabia. Aprendera sua lição.
A única razão do que o incomodava de verdade foi visitá-lo na manhã seguinte. Pra falar a verdade, Harry nem achou que ele fosse, mas lá estava: Taylor Holdman, encarando-o ao lado da porta (fechada, é claro. Aquele não era um assunto pra qualquer um ouvir).
- Fico feliz em saber que você está bem.
- Não graças à você, não é? Sabe, eu realmente pensei ter ouvido você dizer que éramos amigos, mas devo ter confundido a palavra.
- Eu não sabia sobre isso. Juro! Mas você tem que admitir que o que você fez foi bem estúpido. No que você estava pensando?
Perfeito! O cara achava que estava no direito de dar bronca em Harry! Sabe o Harry? Aquele seu suposto amigo que estava todo engessado numa cama de hospital? Pois então...
- Não importa mais. O que disseram?
- Que vocês estão bem. Quer dizer, mais ou menos. Confiar desconfiando, sabe como é.
- Certo. Pode ir agora.
- Eu não sabia Harry, é sério.
- Tudo bem. - mentira, não estava. E Hazz nem sabia se Taylor estava falando a verdade, e mesmo se estivesse, ele estava puto com toda aquela situação e Taylor parecia um ótimo bode expiatório no momento.
- Ok. - Taylor também não parecia muito alegre, talvez porque não estava acostumando com pessoas o destratando. Harry não podia se importar menos. - Eu já vou então.
Vai tarde.


Losing it all on these sick little games”

sábado, 19 de dezembro de 2015

Doce Sacrifício - Capítulo 34 [Secret - Harry Parte I]

Música tema: Secret [The Pierces]

I gotta a secret, can you keep it?
Swear this one you will save
Better lock it in your pocket
Take this one to the grave”

O vento do inverno passou morbidamente frio por Jessica quando a morena saiu de casa, mas ela estava com pressa demais para se importar com algo tão banal quanto o clima. Era um pouco passado das nove da manhã e a garota já estava correndo até a casa de Alison. Devia estar fazendo uns oito graus e tudo o que Jess queria era estar dormindo em sua cama. Porém, ao invés disso, já estava tendo um começo de dia bem agitado e, apesar do frio, suas mãos estavam suando em antecipação.
Estava nervosa, muito nervosa.
Seu celular toca mais uma vez e ela nem precisa tirá-lo do bolso da calça para saber que era Alison. Ela também devia estar nervosa. E tudo isso por culpa de uma simples mensagem.
Alison já a esperava em frente a sua casa quando Jess apontou no fim da rua. Sem dizer palavra, as duas seguem até o quarto da loira, sem saberem ao certo o que fazer agora. Ali então decide tentar ligar para o garoto novamente.
- Pra quem você está ligando? - Jessica senta na cama da amiga, a respiração ainda um tanto descompassada pela corrida.
- Pro Harry, mas ele não atende!
- Se ele quisesse falar com a gente agora, não teria mandado a mensagem e não taria nos fazendo esperar o dia inteira.
- Eu sei, mas se é o que estamos pensando, nós precisamos falar com ele!
- E nós vamos. À noite, no E-Zine. Só tenha paciência, Ali. - Jess sabia que nem ela mesma acataria àquele seu conselho, mas Alison sempre foi melhor que ela para manter a calma em situações difíceis. Se Alison perdesse a calma também, é porque a coisa estava realmente séria. E Jessica precisava de uma confirmação de que a coisa não era tão séria assim, ou ela iria pirar.
As duas estavam sentadas na cama, roendo as unhas em silêncio, com a mensagem que receberam de Harry Jones ecoando em suas cabeças.
Me encontrem atrás do galpão da piscina depois da minha corrida, precisamos conversar sobre vocês-sabem-quem.”

~”~

A lua crescente não podia ser vista no seu céu na noite daquela terça-feira. Estava chovendo em Los Angeles e as nuvens pesadas impediam a visão de qualquer astro mais próximo. Os pingos de chuva batiam com violência contra o vidro das janelas de seu carro, estacionado numa rua mal iluminada qualquer.
O garoto só tivera tempo de comprar seus cigarros e voltar para o seu carro (na verdade, de seu tio) para o dilúvio começar. A nova lei proibia menores de 21 anos de comprar cigarros ou qualquer outro produto relacionado diretamente com tabaco, mas o que uma identidade falsa não conseguia, não é mesmo? E o homem por trás do balcão do pequeno estabelecimento não parecia muito interessado em checar a procedência daquela identidade, de qualquer forma. Se percebeu que Harry não tinha a aparência de alguém com mais de vinte e um anos, fez questão de ignorar.
Agora o moreno estava sentado no conforto de seu carro, tragando um cigarro preguiçosamente, enquanto esperava a chuva dar uma acalmada. Sua mais nova “missão” estava no porta-malas, impressa em uma folha branca A4. Ele nem sabia mais por quê estava fazendo aquilo. No início era divertido, e ele recebera a promessa de que ficaria com a garota. Agora a garota estava o mais longe possível de ser dele e aquilo não era mais divertido. Era errado, muito errado.
Porém, estava demasiado tarde para ele desistir. Nunca o deixariam sair agora que sabia de tanta coisa. Aquilo lá mais parecia a máfia italiana às vezes. Enquanto observava a fumaça se desfazendo no teto, o moreno se perguntava o que deveria fazer, porque compactuar com aquela brincadeira não lhe parecia certo, especialmente depois de ler o que estava escrito naquele papel em seu porta-malas.
Harry se estica para pegá-lo no pequeno compartimento e, envolto numa coragem lesiva, ele rasca a folha em pequenos pedaços, abre um pouco de sua janela e joga os vários pedaços de papel na rua, junto com a bituca de seu cigarro, observando-os ficarem encharcados pela água da chuva. A intensidade desta estava diminuindo e ele resolveu que estava na hora de voltar para casa, antes que sua tia ficasse muito preocupada com ele.
O garoto tinha dez anos quando o câncer levou a sua mãe e treze quando o pai também morreu, mas Harry sabia que ele já tinha ido muito antes, levado pela depressão que o acometeu após a morte de sua esposa. Desde então o garoto passou a morar com os seus tios, Ethan e Rose Jones. Eram pessoas muito boas e tratavam o sobrinho como o filho que eles nunca poderiam ter. Harry gostava bastante deles e não queria nem pensar o que eles achariam se descobrissem no que ele estava metido.
Passou o caminho inteiro pensando no que fazer e quando estacionou em frente à casa, ele já tinha a resposta. Não se incomodou em disfarçar o cheiro de cigarro do carro, seu tio também fumava e o veículo estar cheirando a nicotina era normal. Harry tinha quinze anos quando pegou um cigarro do tio sem que ninguém percebesse e o fumou escondido pela primeira vez. Não parara desde então. Agora, aos dezoito, se arriscava também em coisas um pouco mais pesadas e ilegais.
A luz da sala estava acessa e ele sabia que era a sua tia esperando por ele. O garoto sopra o ar na mão para checar se a bala de menta tinha cumprido com o seu papel e então abre a porta. O cheiro na roupa ele podia dizer que vinha do lugar onde estava com os amigos. Odiava mentir para os tios, mas não estava nem um pouco a fim de levar uma bronca agora, porque seu tio podia fumar, mas para o garoto esse ato era estritamente proibido. Se ao menos eles soubessem...
Estava certo, afinal. Sua tia estava na sala assistindo televisão, mas ficou bem claro para Harry que aquilo era apenas um disfarce quando ela a desligou assim que o garoto passou pela porta.
- Você veio nessa chuva?
- Não está mais tão forte. - ela estava andando em sua direção e ele, disfarçadamente, se afastando dela. Uma pena que não adiantou em nada.
- E esse cheiro?
- Taylor também adquiriu o péssimo hábito do tio Ethan. - o garoto dá de ombros, com uma carinha de inocente que sempre enganava a tia. Ele era um ser humano desprezível.
- É uma pena. Mas agora vá dormir, está ficando tarde. - a mulher lhe dá um beijo na testa e segue em direção ao seu quarto. - Boa noite, Hazz.
- Boa noite, tia.
Quando Harry acordou naquela manhã de trinta e um de dezembro, surpreendentemente, aquela coragem perigosa que o fez picar os planos de G dirigidos à ele ainda estava lá, e quando percebeu, já tinha apertado o botão “enviar” em seu celular.
Depois disso, passou o resto do dia completamente tenso, esperando que a qualquer momento algo de mau lhe acontecesse, que G fizesse alguma coisa de ruim contra ele, para puni-lo pela sua boca grande. Por que mesmo ele enviou aquela mensagem? Bem, agora era tarde demais para arrependimentos, teria que seguir com seu plano suicida até o fim. Talvez aquilo desse certo e tudo terminasse bem. É, talvez...

~”~

O E-Zine era um ótimo lugar para se estar na virada de ano novo. Ficava em um ponto alto da cidade, em uma colina. A visão panorâmica do lugar era bem ampla e, se não fosse pela poluição que pairava no ar, criando uma neblina cinza, seria possível ver metade de Los Angeles dali de cima.
Por esse motivo, o E-Zine ficava ainda mais lotado nesse dia, o que era ótimo para os negócios da família Avery.
Chovera a semana inteira, mas naquele trinta e um de dezembro estava fazendo uma bela e limpa noite, com a lua crescente e as estrelas iluminando a colina. Lá de baixo era um pouco mais difícil de se enxergar as estrelas no céu por causa de todas aquelas luzes artificiais, mas dali de cima, até que era uma bela visão.
No início, o E-Zine era somente um autódromo mais afastado da movimentação da cidade, mas logo começou a englobar também outros esportes e agora era um grande clube do qual a maioria dos estudantes do Roundview High School era sócia. Suas famílias visitavam o clube nos finais de semana, mas durante à noite o lugar era majoritariamente preenchido por adolescentes, atraídos pela falta de vizinhança e policiais vigiando cada passo. A segurança do clube também era bem negligente, mas ninguém parecia se importar.
Naquela noite em específico, todos os veteranos do Roundview estavam ali, até mesmo Emily, com Matthew e Vanessa a tira-colo, é claro. De todos, ela era provavelmente a única com babás pegando no seu pé. Mas antes isso do que ficar em casa trancada, como ela passava a maioria de seus dias. Podia ir para o colégio, mas nem morta ela pisaria naquele lugar de novo, não com aquela barriga pelo menos, e ficar vagando sem rumo pelas ruas não parecia muito sábio. Por causa de seus maus hábitos ilegais sua gravidez era de risco, então andar sozinha por aí não era uma opção. Ao menos ela tinha sua melhor amiga para lhe fazer companhia. E Matthew, por mais estranho que isso parecesse.

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Quando David voltou da sua ida para buscar a segunda garrafa de cerveja, encontrou Jessica exatamente do mesmo jeito que a tinha deixado: sentada no murinho, encarando Joshua, o mais discretamente que conseguia, sem nem ao menos piscar.
- Tira uma foto, dura mais. - o garoto divide o conteúdo da garrafa em dois copos de plástico e quando estende um deles para a amiga, percebe que ela estava olhando para o garoto moreno mais a frente com o cenho franzido, como se estivesse tentando montar um complicado quebra-cabeça.
- Cadê a grudenta da Naomi?
- Por que não aproveita a chance para ir lá falar com ele? - Jess quase engasga com a bebida e o olha como se uma segunda cabeça tivesse nascido em seu pescoço. Dave revira os olhos. Sério que depois de todo esse tempo ela ainda acha que pode enganá-lo? - Eu sei que você quer.
A garota solta um suspiro derrotado, olhando para o copo de plástico em sua mão com desânimo.
- Não posso.
- Por que não? - ela não responde, só remexe os ombros, não muito a fim de entrar em detalhes. – Eu ainda não entendi por quê você não explicou o lance daquela foto nossa pra ele.
- Eu só não queria envolvê-lo nessa história toda de G. Queria deixá-lo longe disso.
Dave começa a rir, uma risada meio rouca e sarcástica. A garota estava olhando para ele como se avaliasse qual era a sua doença mental de novo, então ele logo explica o motivo da risada:
- Se você acha que Naomi tem alguma coisa a ver com isso, então já é tarde demais.
- Eu não tenho certeza disso, é só um palpite.
Há um pequeno silêncio depois disso, com o qual Jessica assume que o assunto foi encerado, mas então David externiza o pensamento que rondava sua cabeça toda vez que via o Campbell:
- Talvez ele esteja mais envolvido do que você pensa.
- Está falando isso pelo o que aconteceu no halloween?
- Você tem que admitir que aquilo foi suspeito. Você foi atrás de mim e ele saiu ileso. A ideia não era alguma coisa acontecer com aquele que não fosse “salvo”?
- Talvez tenha acontecido. Pode ser que a consequência fosse ele se aproximar de Naomi. E eu não fui atrás de você, estava a procura dos dois, te encontrei primeiro por acaso.
Na verdade, ela tinha esperança de encontrar Joshua antes. Ela foi até onde Matthew disse ter visto Joshua com Taylor (o que ainda era estranho pra ela, pois os dois não eram amigos), mas tudo o que encontrou foi David na sala ao lado. Não contara isso pra ele porque daí sim ele desconfiaria de Joshua de verdade, já que o garoto foi supostamente visto na “cena do crime”.
- Obrigado pela parte que me toca.
Não contara isso antes também para não magoar os seus sentimentos, e quando ele soltou aquela frase, ela ficou um pouco preocupada que o tivesse feito, mas sua voz estava com um leve tom sarcástico e ele ostentava um sorriso divertido no rosto. Talvez ele já soubesse disso até, afinal era David. Mesmo que eles tivessem cortado relações por dois anos, Thompson ainda a conhecia melhor do que qualquer um. Às vezes, até melhor do que ela própria.

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A cada toque compartilhado, o coração de Joshua apertava um pouquinho. Jessica e David estavam a uma distância razoável dali, sentados numa parte do baixo murinho que dividia o estacionamento da pequena quadra de basquete. Eles trocavam abraços, risadas e conversas ao pé do ouvido que faziam o estômago do moreno embrulhar.
Joshua decidiu parar com seu momento masoquista quando viu David apertando a coxa da garota.
- Aqui. - Logan se encosta ao seu lado no pilar, estendendo-lhe uma garrafinha de Heineken. - Tu tá precisando.
- Valeu cara. - ele estava determinado a não deixá-la acaber com a sua noite, mas quando sua garrafa já estava pela metade, ele se pegou olhando para Jessica de novo. Merda. Ficar longe de Jessica era umas daquelas metas de ano novo que Joshua sabia que não iria cumprir.
- Você tem certeza que quer continuar com isso? - tinha até esquecido que Logan estava ao seu lado. Não que fizesse muita diferença. Só haviam duas pessoas que sabiam no que Campbell estava metido de verdade e Miller era uma delas. A outra estava afundada nisso com Joshua até o pescoço.
- Não tem mais volta.
- Ela não merece isso. Quando ela descobrir o que você tá fazendo... - a ambiguidade na frase de Logan poderia gerar dúvidas, mas Josh apreciava o esforço. Atuar nunca foi muito a praia de Logs mesmo. Já Campbell estava aprendendo dessa arte bem rápido.
- Ela já fez muito pior. Eu fui parar no hospital por causa dela. Cara, eu podia ter morrido!
- Eu sei! Mas pagar na mesma moeda talvez não seja a melhor solução. E ainda envolver Naomi nisso...
- Não envolvi ninguém em nada. Eu gosto dela. - Joshua já dissera essa mentira tantas vezes que se ele não soubesse de todas as coisas ruins que aquela garota fizera, até ele começaria a acreditar.
- Se você diz. - e com um remexer de ombros Logan estava dando aquela conversa por encerrado, rezando para que essa encenação codificada tivesse dado certo e convencido Taylor (o garoto que achava que estava bem escondido atrás do pilar) que Joshua estava do seu lado.

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Cassandra tomou o primeiro shot para esquecer a discussão que teve com os seus pais antes de sair de casa. O segundo e o terceiro também. Depois disso ela parou de contar. Sabia que estava exagerando na dose de álcool, mas não podia ligar menos.
Foram poucas as vezes que bebera até passar mal e a loira estava ciente que essa seria uma delas. Ela se odiava quando acordava depois de beber demais porque sempre fazia alguma merda. O arrependimento dessa vez provavelmente seria acordar na cama daquele cara que tinha suas mãos por todo o corpo da loira.
Mãos demais.
Mãos masculinas demais.
Às vezes sua bissexualidade escolhia um lado e agora, definitivamente, não era o hétero.
Percebeu a movimentação das pessoas a sua volta para a contagem regressiva para o Ano Novo e usou isso como desculpa para se afastar, mas assim que a contagem chegou no um e os casais começaram a se formar para o beijo de ano novo, o cara com quem ela estava dançando se aproximou novamente. Cassie tentou se esquivar do beijo, mas ele não parecia muito receptível a um não, forçando a situação.
Cassandra estava bem molinha pela quantia de álcool ingerida e mesmo que o outro também estivesse bêbado, ainda era mais forte que ela. Ele a estava apertando demais e uma parte do seu cérebro começou a emitir um sinal de alerta.

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Ashley admirava os fogos de artifício colorirem o céu, ao lado de Vanessa, Emily e Matthew. Há bem pouco tempo, pensava que aquela cena seria diferente. Tinha certeza que estaria passando aquele momento na companhia de Nicole, Cassandra e Michelle. Mas desde que descobrira do curto envolvimento de Michie com Raphael, as coisas que já não estavam indo muito bem, desandaram completamente.
Para ser sincera, de Nicole ela não sentia a menor falta, as duas nunca foram muito chegadas mesmo, mas com Michelle era mais complicado. As duas eram, de fato, muito amigas. Ashley sabia da queda de séculos da loira por Raphael e que ele era o culpado pela morte da mãe da garota, mas como Michie a fizera jurar secreto, ela não tinha contado do fato para Vanessa e desconfiava que Raphael nem tinha noção de que ela sabia. O relacionamento de sua irmã com o garoto nunca foi um empecilho para elas, afinal Michie não queria se envolver com o cara que matou sua mãe (mesmo que tenha sido por um terrível acidente). Ashley contara para Michie sobre Vanessa, a sua doença e quanto Raphael a ajudara. Achava que esse era outro motivo para que a loira desistisse do seu crush de vez, mas no final se descobriu totalmente errada.
Michelle podia jurar de pé junto que aquele fora um erro que não cometeria novamente o quanto quisesse, Ashley não lhe daria uma segunda chance. Vanessa estava quebrada de novo, só se fazendo de forte pela situação de Emily, e Ashley culpava igualmente Raphael e Michelle por isso. Então não, por mais que Ash sentisse falta daquela amizade, ela não voltaria a falar com Michelle nem tao cedo.
Já em relação a Cassandra, o quadro era tão surreal que Ashley nem conseguia descreve-lo. Desde o beijo na festa de halloween, Ash se envolveu numa nuvem de dúvida que não a deixou em paz até que a garota se sentiu tão perdida dentro de si mesma, que precisou tomar uma atitude. Mesmo receosa, ela começara a experimentar ficar com outras garotas e qual não foi sua surpresa ao descobrir que gostava da coisa, e mais surpreendentemente ainda, que por mais interessante que fosse, não chegava nem perto da sensação que teve com Cassandra. Mas bem, naquele dia ela estava chapada e podia muito bem ter sido a euforia da droga falando mais alto. Ela preferia acreditar que sim, afinal ela podia aceitar (com certo esforço, confesso) a sua provável bissexualidade, mas o fato de que poderia estar gostando de verdade de uma garota era demais para ela processar.
Voltando a sua situação atual, Ash se sentia um pouco constrangida com todos aqueles casais a sua volta se beijando, pelo menos ela tinha mais três pessoas para lhe fazer companhia. Especialmente Emily e Matty. A morena quase conseguia ver a névoa de tensão que pairava sobre eles. Muito bizarro.
Dando uma olhada ao redor, ela notou uma cena que fez uma estranha sensação se apossar de seu estomago. Não muito longe dali, ela encontrou Cassandra beijando, não, sendo engolida por um cara qualquer. Nojento. Estava a ponto de virar as costas para a cena quando percebeu Cassandra tentando se afastar e o cara a puxando de volta. Não entendeu bem o porque, mas aquilo a deixou com uma puta raiva e quando deu por si, já estava a centímetros dos dois.
- Me solta. - ouviu o comando/pedido da loira e isso foi o combustível que ela precisava para tomar a atitude de empurrar o cara pra longe da outra.
Cassie aproveitou da surpresa do cara para se afastar, sentindo o bolo incomodo no estomago e o mundo girar. É, ela tava “um pouco bêbada”, hora de admitir.
- Mas o que...?
- Cai fora! - Ash corta o cara, olhando-o ameaçadoramente.
- E quem vai me obrigar? Você?
Ele tava com um sorriso bêbado debochado na cara, o que deixou a morena ainda mais nervosa. Ninguém zombava dela. Principalmente um bêbado qualquer. Mais principalmente ainda, um bêbado qualquer que forçava a barra com meninas em situação precária de defessa própria. Por isso, agindo novamente por impulso, Ash se viu dando um belo de um chute nas partes baixas do infeliz e um soco remodelador de narizes no dito cujo, torcendo para que tenha doído tanto nele quanto doeu em sua mão.
O garoto se encolheu, uma mão no meio das pernas e outra na cara, e Ashley aproveitou o momento para puxar Cassandra pelo pulso e saírem correndo dali. Podia facilmente gritar e chamar a atenção do pessoal mais próximo caso ele tentasse revidar, mas ela não queria arriscar, além do mais, escândalos não eram bem a sua praia. Quando chegou perto do trio que a acompanhava, percebeu que Cassie estava meio verde, a mão livre massageando a barriga.
- O que aconteceu? - Vanessa pergunta preocupada assim que as vê chegando.
- Eu acho que ela vai vomitar. - Emily alerta, dando discretos passos para longe da loira.
A morena estava certa, Cassie só tem tempo de ir apressada até o canteiro em volta do poste de luz antes de devolver tudo o que tinha no estomago. Rapidamente, Ash vai até a garota e junta os cabelos da mesma nas mãos, deixando as da loira livres para se apoiar no poste. Assim que Cassie termina de adubar as plantas, Matty decreta que a noite tinha acabado e decide levar as garotas pra casa.

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Dakota olha para o céu explodindo em luzes coloridas e depois para as pessoas à sua volta comemorando o Ano Novo. Ela olha com certa repulsa para as pessoas se abraçando. A única pessoa com quem ela se dignava a ter esse tipo de reação não estava mais ali. Só Deus sabe em que lugar do planeta seu pai estava nesse momento e sua irma deveria, muito provavelmente, estar se agarrando com algum garoto aleatório por aí. Bem, pois a loirinha também tinha um garoto a quem recorrer nesses momentos de melancolia.
Já sabendo onde o encontraria, Dakota vai a passos firmes até os fundos da quadra coberta. Tinha mais pessoas do que ela gostaria ali, mas resolveu deixar isso de lado assim que avistou Harry num canto, arrumando as carreirinhas de pó branco em cima de uma mesinha improvisada.
- Eu deveria me preocupar com a frequencia com que você está me procurando? - foi o que ela ouviu assim que parou a sua frente. Ele não olhou diretamente pra ela, concentrado em seu trabalho, o que a loira agradeceu mentalmente, pois sabia que tinha corado.
- Eu não estou te procurando. Eu to procurando o seu amigo branco aí.
Ele levanta o olhar para ela pela primeira vez, não parecia muito contente com o que ela acabara de falar.
- Então é com isso que eu tenho que me preocupar?
- Você não tem que se preocupar com nada.
- O que significa que eu tenho com o que me preocupar.
Dakota não entendeu se ele disse isso pela dupla negativa em sua frase ou porque ela estava mentindo na cara dura. Mas de qualquer forma, ela deixou o comentário de lado e se sentou a sua frente, tomando posse da primeira fileira de pó.
- Ei, vai com calma aí! E deixa pra mim também. Esse aí custou caro.
- Depois eu compro mais pra você, satisfeito?
- Não. Vamos manter o esquema de que quando você quiser alguma coisa é só me pedir que eu arrumo pra você. Não te quero metida com essa gente, entendeu?
- Sim, pai.
...
Raphael estava do lado de fora da quadra quando Dakota e Harry saíram de lá, minutos depois. A loirinha não o percebeu parado ali, andando meio grogue e olhando fascinada para o céu, onde os últimos fogos de artifício estouravam. Já a atenção de Harry foi puxada para o garoto, uma vez que este agarrou o seu braço assim que o viu passar por ele.
- Eu sei que você é um idiota que só faz as escolhas erradas, mas será que dava pra deixar a Dakota fora dessa? Ela é só uma criança.
- Eu acho que ela é grandinha o suficiente para fazer as suas próprias escolhas. E eu pensei que seu interesse era em outra Blackwell.
- Não tenho interesse em alguma delas, só estou te alertando.
- Alertando? Por que isso soa como uma ameaça?
Raphael não responde, só continua a encarar Harry, que vai perdendo o sorriso debochado ao perceber que Duncan falava sério, bastante sério.
- Hei, Harry! Você vai correr hoje? - Dakota, alguns passos à frente, volta-se para o garoto, que, assim como Raphael, percebeu bem rápido qual era a intenção da mocinha com aquela pergunta.
- Se você colocá-la dentro daquele carro, pode dar adeus à sua festinha ilegal.
- E lá vem a ameaça de novo. Você devia superar essa família, cara. Sério, tá ficando esquisito.

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Assim que Vanessa e Ashley terminam de carregar uma quase desacordada Cassandra para dentro de casa, Matthew dá a partida no carro mais uma vez e Emily se remexe desconfortável no banco do carona, pensando em uma maneira de abordar aquele assunto que vinha ensaiando o dia todo. Era Vanessa que sempre arrumava essas coisas para ela, que sempre intermediava as coisas entre Emi e Matty. Mas agora ela deixara a pobre garota sozinha com a difícil tarefa de pedir (mais) aquele favor ao garoto.
A morena sabia que ele iria prestativamente concordar em acompanhá-la, ele sempre fazia o que ela pedia; o que deixava Emi ainda mais desconfortável em fazer aquele tipo de coisa.
Ela tentava não demonstrar, mas sabia que o que Matty estava fazendo por ela não era só pela amizade dos dois. Sabia que tinha algo a mais e ela simplesmente não conseguia entender como, depois de tudo o que ela fez, ele ainda podia sentir algo por ela. Emily não se sentia merecedora de todo o seu esforço. Por Deus, ela estava grávida de outro cara!
Ela não podia pedir para que ele a acompanhasse até a clínica para fazer aquele ultrassom, não podia!
Mas teria.
Vanessa não poderia ir com ela e Emi não queria que seus pais participassem de nada relacionado àquele bebe. Eles poderiam se apegar à criança e, como Emily estava disposta a dá-lo para a adoção assim que ele nascesse, era melhor nem arriscar com aquilo. Logo, só lhe restava Matthew.
- Hm, Matty? - estava com os olhos fixos na estrada a sua frente, tentando parecer o mais relaxada e casual possível.
- Sim? - ele não a olha, atento a direção, ao que ela agradece. Assim seria mais fácil para ela deixar as palavras saírem.
- Segunda-feira eu tenho uma consulta com a Dra. Tyler. Vanessa não vai poder ir, será que você poderia me acompanhar?
Matthew desvia sua atenção da estrada por um instante, para olhar a menina ao seu lado no carro. Dra. Tyler era a obstetra de Emily e aquilo o pegou de surpresa. Apesar de fazer várias coisas por ela e estar presente em todos os momentos nesses cinco meses, ele nunca a acompanhou em alguma consulta, achava que era algo íntimo, pessoal demais e Vanessa ocupava bem o papel. Mas ele tinha aquele pequeno defeito de não conseguir negar algo à Emily.
- Claro, Em. Eu vou com você.

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Vanessa estava acostumada a dar banho em pessoas debilitadas em seu trabalho voluntário no hospital, mas visto que essas pessoas que ela ajudava eram crianças e em sua maioria bem magrinhas em razão da doença, suas habilidades não eram exatamente suficientes para ajudar uma garota de 18 anos bêbada em seu banheiro. Achou que poderia ficar feliz por ter sua irma como assistente, mas Ashley estava sendo de tanta ajuda quanto a sua pasta de dente em cima da pia.
Pelo menos Cassandra não estava mais vomitando, na verdade ela avia apagado na metade do caminho pra casa das gêmeas. Mas por via das dúvidas, era melhor providenciar um balde para deixar ao lado da cama de Ashley, porque vai que a menina começa a andar bêbada, ou sonambula, pela casa e acorda os seus pais, ou pior: e se ela estiver chapada também? Vanessa não era obrigada a lidar com a larica de ninguém, Ashley que era sua amiga que fizesse isso.
Infelizmente Ashley não tinha como refutar o argumento sem entrar em detalhes desnecessários, então teve que aceitar a situação levemente embaraçosa em que aquela decisão a colocaria. Dormir na mesma cama que Cassandra. Céus, isso ia ser estranho. Só o que podia fazer agora era torcer para que a loira não acordasse e então Ash podia acordar na manha seguinte e fingir que isso nunca aconteceu.
Mas é claro que não seria assim tão fácil. Ela já estava convencida de que alguém lá em cima não gostava dela, mas agora estava começando a pensar que essa pessoa realmente a odiava. Porque é claro que assim que Vanessa as deixasse sozinhas no quarto de Ash, Cassandra começaria a recobrar a consciência, ou quase, visto que ela ainda parecia meio bêbada.
- O que aconteceu?
Ashley já estava ficando cansada e com sono, por esse motivo, quando terminou de explicar para Cassie onde ela estava, se viu deitando ao lado da loira em sua cama.
- Você poderia fechar a janela?
- Já tá fechada.
- Tá frio. - a loira se move mais para o meio da cama e, visto que elas estavam viradas uma de frente pra outra, isso as deixou estupidamente perto.
- Foi o banho, daqui a pouco esquenta.
E então as duas ficaram ali, se olhando em silencio. Até que aconteceu. Ashley não saberia dizer ao certo como, mas quando percebeu, suas bocas já estavam grudadas, mãos pra todo lado e a morena estava certa, estava mesmo esquentando. Porém Ashley nem teve tempo de se preocupar com o seu ato falho, pois assim que elas se acalmaram, Cassie pegou no sono direto, mas não sem antes aninhar-se ao lado de Ash e escorregar a sua mão na dela, apertando-a firme.
E Ashley odiou o quanto aquilo lhe pareceu certo.

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De volta ao E-Zine, Harry preparava-se para a sua corrida. Ele não podia acreditar que chegara até ali sem ouvir uma notícia sequer de G. Ele achou sinceramente que seria pego em sua tentativa idiota de ser o herói da noite, que G lhe faria alguma coisa por ele ter mandado aquela mensagem para Alison e Jessica. Mas ali estava ele, a quase uma da manhã e completamente inteiro.
Era mesmo uma pena ele ter de descobrir do jeito mais fatal que ninguém era capaz de enganar G.

If I show you than I know you won't tell what I said
'Cos two can keep a secret if when of them is dead
'Cos two can keep a secret if when of us is dead”

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Hey! Wasup people! Olha só quem está de volta! Cara, como faz tempo...
Não vou pedir desculpas pela demora porque nem foi exatamente culpa minha, a vida tá louca mesmo e é isso aí, temos que lidar... Só sei que estava muito, MUITO, frustrada por não conseguir atualizar esse capítulo, mas agora que o fiz, estou mais feliz que pinto no lixo!

(nunca entendi essa expressão, tipo: pinto gosta de lixo? Enfim...)

Esse capítulo é um dos meus xodós, e eu espero sinceramente que gostem e que ele tenha compensado toda essa demora.
Cliquem aqui para as respostas dos comentários no capitulo anterior.
Como sei que não vou aparecer por aqui de novo esse ano: feliz natal e um próspero ano novo pra vocês! Que 2016 seja 10 mil vezes melhor que 2015 (porque eu não sei vocês, mas pra mim esse ano foi uma merda. Foi tanta treta que olha...)
Beijos de luz e que a força esteja com vocês!

(ou, para aqueles que gostam de Física: que a massa vezes a aceleração esteja com vocês)